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Após ter perna amputada, modelo se torna fisioterapeuta e ajuda pessoas

Após ter perna amputada, modelo se torna fisioterapeuta e ajuda pessoas


Mirella Duarte

Arquivo Pessoal

Modelo e fisioterapeuta J�ssica Ara�jo Reolon

Em questão de minutos a vida pode mudar completamente. A fisioterapeuta Jéssica Araújo Reolon, 25 anos, sabe que a vida é de adaptações – e muitas delas, inesperadas. Com uma prótese colorida nas pernas, anda com lindos sapatos altos e as fotos que publica nas suas redes sociais transparecem leveza em viver.

Nem sempre foi assim, isso porque em um acidente que ocorreu em janeiro de 2009, sua vida virou de cabeça para baixo. Ela e sua família seguiam viagem para visitar alguns parentes no interior de Mato Grosso. Foi numa fração de segundos que a caminhonete em que estavam perdeu o controle da direção, após cair em um buraco, e colidiu contra um poste. “Até o momento da batida não havia acontecido nada. Estávamos todos bem. Mas não vimos que o poste havia caído e o fio de alta tensão caído sobre o veículo”, lembra.

Ao descer do carro, eles receberam uma descarga de alta tensão. Jéssica estava sentada no banco do passageiro ao lado esquerdo e, quando colocou o pé no chão, ponto de entrada do choque, sofreu a descarga que comprometeu sua perna. “Foi necessária a amputação para que eu pudesse sobreviver. Já não havia mais sensibilidade superficial, profunda e nem mesmo a circulação de sangue no pé”, explica.

Hoje, ela é fisioterapeuta pós-graduada em prótese, órtese e materiais especiais. Quando tudo ocorreu, ainda na adolescência, Jéssica conta que nem sabia o que era autoestima. Foi preciso lidar não apenas com a dor da morte do pai naquele acidente, mas com a internação grave também da sua irmã e madrasta, além da amputação. “Eu estava em um momento de muitas dores, emocionais e físicas. Tive que aprender a construir e fortalecer a minha autoestima. Foi uma fase de muitos questionamentos, medos, mas também de muito amadurecimento. Hoje eu enxergo a beleza como algo que transcende o físico” diz.

No momento em que teve sua alta hospitalar, a “ficha caiu”, e se viu em uma cadeira de rodas, sem uma das pernas. Para ela parecia uma realidade paralela. Foi um choque. Após diversas fases, foi um longo processo, mas por tudo que passou - se transformou. “A vida é um presente e merece ser aproveitada. Todos somos um propósito, e eu realmente acredito que eu estou onde deveria estar e que tudo aconteceu como deveria acontecer”, defende.

Pacientes que sofreram amputações na pandemia

Arquivo Pessoal

Modelo e fisioterapeuta J�ssica Ara�jo Reolon

A fisioterapeuta nunca parou de atender, nem mesmo na pandemia. Existe o fato do crescimento de amputações e segue atendendo normalmente, inclusive pacientes que sofreram amputações devido a complicações da Covid-19.

Ela atua na área de reabilitação de amputados. Trabalha na empresa em que chegou como paciente e, hoje é uma das fisioterapeutas. "Tive um contato muito grande com a fisioterapia. Apesar de ter sido uma das fases mais difíceis, porque é um momento em que nós temos que aprender a lidar com as nossas limitações e dificuldades funcionais, eu me apaixonei e todos os caminhos me trouxeram até aqui", lembra de quando era  ela a paciente.

Jéssica diz que vê muito dela nas pessoas que atende e, todos eles passam por boa parte de tudo que já passou. "No início, um mundo novo se abre. Muitas dúvidas, medos, e a partir do momento em que eles passam a vivenciar uma nova realidade de possibilidades, é um renascimento. É incrível fazer parte disso", conta

Superação

No início houveram dificuldades que são inerentes ao processo, mas que se ajustaram. Por isso, ela conta que teve de aprender a falar sobre o que ocorreu para outras pessoas, pois era questionada todos os dias e ainda é. A diferença, para ela, é que não chora mais ao contar a sua história. Ela já foi superada. “Aprender a se respeitar, a respeitar seu corpo, seus medos, angustias e desejos é um exercício de pratica diária”, finaliza.